Crítica à Na Estrada - On The Road
Postado por Nathalia em 17 Jun 2012

Em Na Estrada, do respeitoso Walter Salles, em alguns momentos quase uma adaptação dolorosamente fiel do romance de Jack Kerouac, no espírito do nascimento dos Beat, os personagens estão sempre chapadosde alguma coisa ou outra, e eu não me refiro somente à drogas - embora eles fumem maconha e dissolvam Bezendrina no café. Eles também vão para clubs noturnos e escutam jazz, seus corpos tremendo e se contorcendo enquanto a música trabalha sua maneira dentro deles. Eles têm muito sexo, também, algumas cenas bem expostas: numa volta de carro no nada, Sal (Sam Riley), o personagem de Kerouac, que é ansioso mas recessivo - um menino-homem tomando cuidadosamente o estoque de tudo o que ele bebe - fica nu no banco da frente juntamente com Dean (GArret Hedlund), o narcisista Neal Cassady, e Marylou (Kristen Stewart), o jogo inocente de Dean com sua jovem ex-mulher, que está sentada, também nua, entre os dois homens enquanto ela agrada cada um deles com as mãos. (Não estou brincando quando digo que Kristen Stewart atua muito bem nesta cena - primeiramente, ele parece mais entusiasmada do que relaxada.) A outra parte alta do trabalho é a religião de palavras. Sal mantém mergulhando em um volume de Proust, e ele digita na noite e rabisca em seu caderno, fazendo tudo o que pode para dar forma ao sentimento.
A coisa estranha do filme, que acontece durante vários anos no final da década de 40 e começo da de 50, é que mesmo que estivemos observando todas estas atividades, é um pouco difícil de se conectar a eles. Música e dança selvagem, sexo desenfreado, linhas poéticas de linguagem: essas são todas coisas boas, mas em Na Estrada elas são mostradas estrondosamente sérias, empenhos de peças de museu. E então é um pouco difícil de experienciar o que o filme quer te dar, que é um contato alto. Assistindo Na Estrada, há uma festa desconexa e balançante acontecendo - e também uma grande parcela de melancolia - que não somos muito convidados a assistir, como se isso fosse um pedaço sagrado da antropologia cultural. E de algum modo, é mesmo assim. Salles, o abençoado e ambicioso diretor Brasileiro (Diários de Motocicleta), faz tudo o que pode para colocar o romance de Kerouac, que foi escrita em um único mês em 1951 (e publicado por Viking em 1957), nas telas. Mas o que ele não nos dá - e o que faz o livro funcionar - é o deslumbrante desmaio boêmio de Kerouac. Sem ele, On the Road é uma experiência curiosamente remota toda a razão e sem rima.
A melhor coisa do filme é a performance de Garrett Hedlund como Dean Moriarty, cuja fome de viver ? ávida, erótica, insaciável, destrutiva ? acende uma chama que irá iluminar o caminho para uma nova era. Hedlund é tão galã quanto o jovem Brad Pitt, e como Pitt, ele é um ator astuto e adaptável. Ele dá a Dean olhos que brilham com um entusiasmo seduzente, que fazem fronteira sendo meio quebrados. Dean recocheteia entre as andanças na estrada pela America que ele faz com Sal e Marylou e sua vida restrita como um marido e pai em San Francisco com sua mulher, Camille (Kirsten Dunst). Um trabalhador quando precisa de dinheiro, ele arrasa com os limites da vida da classe média porque ele não se importa com eles ou mesmo não os vê. Para ele é só agora, agora, agora, com sua paixão se espalhando pelos lados, mas seus sentimentos não são somente sexuais. Eles são sobre seu amor por seus amigos, como Sal ou Carlo, o personagem Allen Ginsberg no filme, interpretado por Tom Sturridge com uma doçura infantil pós-guerra-walt-whitman-em-Nova York.
Kristen Stewart, frequentemente em topless, faz a sombria e efervescente Marylou uma convincente hippie da pré-história, e Vigo Mortensen de maneira divertida acerta com a maneira seca de ser de William Burrough, e voz de paint-chip (marca de um lanche) no papel do vello Bull Lee, um viciado Burroughts de muita violência e paranoia. Sal, infelizmente, é um destes heróis de filmes que é grande observador, e Sam Riley, o ator britânico que foi tão fascinante como o vocalista Ian Curtis de Joy Division em 2007's Control, não pode faze-lo interessante. Em Na Estrada é como um Leonardo DiCaprio mais circunspecto, com uma elegante inocuidade felina. Ele interpreta Sal como um cara que muitas coisas boas acontecem para ele, mas ele nunca realmente toma as rédeas - de sua vida, ou do filme.
No romance de Kerouac, claro, Sal não teve que tomar as rédeas. Sua voz estava alí en toda palavra que Kerouac escrevia. Sem aquela voz (Nós a ouvimos em off , claro, mas isto não é um filme, é como se estivesse sendo lido), Na Estrada é um drama de mão cheia, anedotas, encontros relâmpagos e relações que duram por anos mesmo tendo todo informe de embriaguez de vinho derramado do copo. O filme é sobre pessoas alcançando sensações, experiências - uma forma de vida - que ainda não tinha sido codificada na cultura. Mas agora, sessenta anos mais tarde, foi, e Na Estrada, enquanto o filme possa pensar que está te mostrando como as coisas eram antes, não pode realmente imaginar como eram.

Fonte | Tradução: Sheila Andrade e Elza

O conteúdo acima foi traduzido pela Equipe Stewart Brasil.
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